PARTE SETE | Juras eternas

Sentir você é como se todo o calor do Universo me tocasse. É como viver um transe de eterna paixão e de vez em quando, despertar para olhar você mais um pouquinho e mergulhar fundo em nossas emoções… Até sucumbir extasiado, maravilhado, realizado por nós mesmos…”

Arthur mantinha acesa a chama do seu amor em cada instante da sua vida.

Sentir você é como o sol que percorre a relva, embalado pelas nuvens passageiras, que vêm e vão, deixando aquele calor morno e gostoso pelo corpo que se espreguiça num espasmo de prazer e lassidão”.

Sentir você, beijar você, é coabitar um forte desejo de nunca querer mais separar os lábios, com medo de perder aquela vontade louca de querer sempre mais. Beijar… beijar… beijar, despertar os anseios e os desejos libertários do inconsciente. Apertar você contra o meu peito, beijar loucamente, tresloucadamente, como um louco que percebe a lucidez da sua imagem num espelho em pedaços e procura, insandecidamente, os olhos, a boca, cada parte do copo, como se fosse à última salvação. Adorar você é a coisa mais fantástica e inusitada deste Universo. É como a abelha que adora a flor que lhe dá mais pólen, que lhe oferece o cheiro mais harmonioso e sedoso que a seduz…”

Pensar em Esther era uma constante. Às vezes ele escrevia para firmar o seu voto de paixão, imaginando senti-la pertinho dele:

Sentir você é um desejo enorme de nunca querer separar. Desunir-se! Romper-se! É sentir a vontade de sorver todo o seu corpo num gole de champanhe e deleitar-se embriagado, apaixonado até pela nesga do seu olhar que, num gozo supremo, se extasia dolentemente, cheio de ais…”

Eram apenas expressões sentidas bem no fundo da sua alma. Desejos incontidos, reprimidos que aguardavam o momento para desafogar as emoções refreadas por décadas…

Para seu maior conforto e segurança, Arthur mandou construir no segundo andar casa um imenso salão, ao mesmo tempo lhe servia de estúdio e quarto, e era fechado por dentro. Neste local se encontrava com Esther e nem percebia que o tempo fluía, voava e também era voraz… 1 ano, 2 anos, 3… 4… 5… 9… 10… Para muitos a sua reclusão já fazia parte do seu temperamento de artista; aquela era a justificativa comumente dada por todos.

E assim, Esther e Arthur viviam momentos de intenso amor verdadeiro, através de uma tênue barreira de plasma de energia. Às vezes, tinham a impressão de que seus corpos se tocavam, seus lábios se encontravam, mas era só a força de vontade de ambos que tornava aquelas sensações quase uma realidade. E aqueles instantes, minutos, horas que passavam aquele enlevo de amor, de paixão, de juras eternas, iam sugando a jovialidade de Arthur; ele sentia isso na pele enrugada; em alguns sintomas que surgiam com a idade chegando a olhos vistos. Sentia-se envergonhado ante a beleza cada vez mais acentuada de Esther.

E ele retornava à realidade da vida, do cotidiano de todo mundo, mais velho. E mesmo já acostumado com as mudanças que ocorriam ao seu redor, não conseguia se habituar a elas. Muito dos seus amigos ou simples conhecidos haviam falecidos ou se mudado para outros lugares… O tempo era implacável e a sua presença cruel e devastadora, mantinha Arthur ciente do que podia esperar ou que o aguardava sempre. Seus sobrinhos crescidos, suas irmãs preservavam o seu direito de solidão… Escondiam um segredo inviolável que não pôde ser revelado aos seus pais no leito de morte, quando chamavam por Arthur, em suas últimas despedidas. Cláudia e Vivane amargaram um sofrimento terrível, principalmente quando a mãe morreu. Arthur era o seu filho predileto e, no entanto, estava ausente naquele momento. Mas parecia que ela lia nos olhares desesperados de suas filhas que ocultavam algo muito profundo… Suas últimas palavras foram:

“— Diga ao Arthur para nunca desistir dos seus sonhos… E que amo muito ele…” —  e sua vida esvaiu-se com um sorriso nos lábios.

Mas depois veio o mais difícil.

Com certo temor, contaram para Arthur sobre a morte da mãe e do pai, duas fatalidades que o deixou extremamente abalado emocionalmente por muito tempo. E nessa época entrou em profunda depressão… Isolamento e silêncio foram a solução para aplacar o seu coração cheio de sofrimento e dor. Quando se lembrava dos seus pais, caia em pranto lamentando a falta que eles faziam em sua vida. Às vezes, batia-lhe uma revolta cega, arrumava as malas e saía pelo mundo afora, sumindo dias, meses, numa fuga impossível! Mesmo com todo o pesadelo que se transformara a sua vida, somente um pensamento não lhe fugia da mente: Esther! E, então, como se fosse puxado por uma linha invisível, retornava ligeiro para casa com um sentimento de arrependimento… Como o seu mundo era pequeno!

Às vezes, Arthur perdia as forças, o desejo, desacreditava em tudo… Caía em desesperança na vida. Acreditava que o seu tempo estava no fim. Punha em dúvida todo o sacrifício que fizera até agora por um amor platônico! Como suportava aquilo tudo? Por que não terminara aquela fantasia antes de se ver completamente envolvido? Podia ter se casado com uma mulher real… Existiam muitas que o aceitariam de bom grado… Por que fora amar justamente uma mulher impossível?! Quarenta anos de inteira desolação física! Às vezes achava que tudo não passava de uma projeção da sua mente, que um dia iria acordar e sua vida estaria normal… Mas, e Esther? Como podia uma mulher bonita, jovem, uma princesa, gostar de alguém como ele? UM TRASTE! Trinta anos haviam se passado e ele não era mais aquele jovem que ela conhecera… Se um dia, porventura viessem a estar juntos, toda a sua vida já teria corrido…

 “Quando olho para o céu e observo as estrelas, imagino que você também deve olhar para elas… Mas será que os seus pensamentos compactuam com os meus? Será que ao olhar para aquela imensidão você pensa em mim?  Nos momentos que passamos imaginando outros mundos, outros planetas… É bem difícil… Difícil é pensar em mim, difícil é se lembrar de mim. Será que ainda se lembra que existo? Muito pouco provável… Provavelmente não sou nem lembrança… quiçá uma poeira cósmica…”

Se cada estrela que brilha no firmamento é uma réstia de esperança em cada coração apaixonado, todas as vezes que olho para aquele céu estrelado, vejo que nem tudo está perdido… Cada vez mais, percebo que ainda existem pessoas que acreditam na possibilidade do milagre…”

Ele precisava crer, precisava mais do que nunca ter forças para viver aquele milagre de impossibilidades! Contudo, permanecia fiel àquele amor puro, convicto de que só lhe restava ele, e pelo qual já havia entregado a alma, o espírito, o seu ser e toda a sua essência divinamente criadora…

Quando estavam juntos, ele tocava aquela trama de energia, olhavam-se nos olhos, ansiavam por um beijo, por um abraço apertado, por estarem juntos… Compreendiam que o amor deles era muito mais forte. Arthur havia superado a barreira do tempo e até a sua própria vida… O tempo não conseguiria tirar-lhes a resistência. Nada mais importava no mundo…

(extraído do livro: ESTHER E ARTHURParte Sete – Juras Eternas –  by John Dekowes)

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